Brigadista que chegou pouco após barragem romper relata o que viu

Felipe Butcher mora em Casa Branca e foi ao local da tragédia em Brumadinho

FELIPE BUTCHER*

Felipe Butcher/WebRepórter
Foto: Felipe Butcher

Vou contar minha experiência nos últimos dois dias porque foi muito forte pra mim. O texto vai ser bem longo mesmo, pois é uma experiência bem válida de se compartilhar.

Minha atividade principal é ser programador. Trabalho de home office e moro em Casa Branca. Sou brigadista voluntário de incêndios florestais, não tenho curso de socorrista. Fiz curso com os bombeiros e atuei várias vezes com eles, apenas em incêndios florestais. A situação de ontem (sexta-feira, 25 de janeiro) nem passava pela minha cabeça que eu iria viver um dia.

De repente, chega mensagem no WhatsApp. Como a comunidade de Casa Branca e região tem muitos grupos em WhatsApp e afins, chegou muito rápido. Alguém que estava na Vale mandou um áudio gritando. A dúvida de ir ou não ir foi forte, e a galera da brigada ficou sem saber, uns falando para ir, outros para não ir. Coloquei os EPI’s, entrei no carro e fui. Como minha casa fica a apenas 16 km do Córrego do Feijão, cheguei bem rápido. Ainda havia poucos bombeiros. Ambulâncias e helicópteros estavam chegando e pousando no campo de futebol, um do lado do outro. Rapidamente, já havia seis helicópteros. Mil bombeiros chegando, Bope, Polícia Civil e, o mais cruel e triste de todos: o caminhão preto do IML.

Pelas ruas, era possível ver vários grupos de pessoas chorando, gritando, tentando ligar pras pessoas que perderam… cada família que você encontrava pelo caminho, procurava alguém. Em determinado ponto, praticamente todos os brigadistas florestais de Casa Branca estavam lá. Nos apresentamos ao comando dos bombeiros e nos juntamos a eles. Conhecíamos bem a região e sabemos entrar bem no mato.

O grande problema é que havia, e ainda há, uma segunda barragem. A parede da segunda barragem estava “molhada” de lama, a onda bateu nela. Portanto, ninguém estava autorizado a fazer buscas via terrestre.

Resgates somente de helicóptero porque se a lama vier dá tempo de sair. Pensei em desobedecer. Arriscar a vida pra tentar salvar outra é algo muito emblemático. Eu amo minha vida. Falei com alguns e resolvemos descer. Isso já havia se passado umas 2 horas do rompimento. Fomos margeando a lama mais de longe, sempre onde havia lugares mais altos para se correr caso necessário. Andamos pouco, rádio chamando mandando voltar pro posto de comando dizendo que ia romper. Medo. Voltamos.

Na volta, já ia vendo os helicóteros descendo com corpos içados, embrulhadinhos no plástico preto. Cena surreal, coisa de filme. Famílias atrás da cerca chorando e, de longe, tentando ver se era um deles. Hora chegava corpo, hora chegava vivo. Os corpos sendo colocados no caminhão do IML. O caminhão ia cheio e voltava vazio, como se fosse carga.

Perto das 5 da tarde já batia um clima de desespero, um sentimento de impotência de que eu ia sair dali sem conseguir salvar ninguém. Era tudo o que eu queria. Enfim, o posto de comando autorizou. Todo mundo descendo, bombeiros militares e civis, brigadistas, gente de chileno.

Pegamos caronas com jipeiros. Todas as tribos estavam ali tentando ajudar. Vimos uma ponte gigante de concreto derrubada. Descemos. Andamos e andamos muito, seguindo a linha do trem que beirava o rio Paraopeba. Uma apitada seguida de silêncio pra ver se ouvia algum grito. A noite já chegava e só se ouvia o barulho da água do que sobrou do rio passando por cima da lama, sapos, grilos… tudo o que sempre ouvimos neste lugar. Nenhum grito. De repente, um barulho de moto vindo pelo trilho trem. Uma CG com um casal. Estavam procurando parentes. E assim ia, do nada na escuridão, sempre aparecia alguém procurando alguma essoa querida.

Voltamos ao posto de comando já tarde da noite. Pessoas que tinham perdidos suas casas, com mochilas, travesseiros, comendo a marmita e os lanches fornecidos pelos voluntários e pela Vale. Helicópteros já não voavam mais. Cidade sem luz. Só o barulho dos geradores, vozes e choro. Voltei pra casa sem conseguir salvar ninguém.

Hoje, domingo, a brigada foi novamente. Foram até a pousada que estava lotada de hóspedes e foi destruída pela lama. Peço desculpas pela fraqueza, mas não tive estômago. Tudo o que viram foram corpos na lama.

Salvaram alguns cachorros, maravilhoso. É um pouco de alegria no meio de tanta tristeza. Fiquei com minha namorada e o pai dela, que mora lá, a três quarteirões de onde a lama chegou, e estava na dúvida se ficava ou não em sua casa. A ordem era sair. Sem esperança, apenas o lamento aceito.

A comoção e ajuda de todos é muito linda. A união de todos, desde o empresário que nos deu carona na sua 4×4 com couro costurado, até o garoto com boné e chinelo guiando as viaturas, é tudo lindo. Orgulho de ter feito o que eu fiz, eu tenho. Mas não precisava. Não foi um acidente. Não vale a pena. Não vale.

*texto enviado para o jornal O Tempo

https://www.otempo.com.br/cidades/brigadista-que-chegou-pouco-ap%C3%B3s-barragem-romper-relata-o-que-viu-1.2127633

3 thoughts on “Brigadista que chegou pouco após barragem romper relata o que viu

    1. Olá, muito obrigado por informar. Essa foto é sua? O Felipe é meu amigo e pedi pra que ele me mandasse essa foto, porque é a única que tem ele em ação. Inclusive achei que fosse de alguém tão chegado dele que não fosse se importar, dado o teor da matéria. Posso trocá-la se for o caso, não tem problemas.

      Saudações.

    2. Felipe me passou esse texto original, antes de enviar para O Tempo. E acho que ele curtiu demais a foto que você tirou dele, Giazi. Parabéns pela foto!

      Alterei a foto de qualquer maneira e deixei a original do jornal O Tempo então.

      Esse foi uns dos primeiros posts desse site e achei muito intenso, por isso quis deixá-lo com o texto do Felipe (e mostrando ele) e dar ênfase na disposição e relato dele.

      Obrigado.

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