Início do ano letivo marcado pelo choro das crianças em Brumadinho

Onze alunos com idades entre 3 e 18 anos perderam o pai ou a mãe na tragédia da Mineradora Vale

PEDRO FERREIRA

O primeiro dia de aula nas três escolas particulares de Brumadinho, na região metropolitana de Belo Horizonte, nesta segunda-feira (4), foi marcado pela tristeza, principalmente das crianças, que o tempo todo choravam e precisaram ser consoladas pelos professores.

No Sistema Pedagógico Semear, 11 alunos com idades entre 3 e 18 anos perderam o pai ou a mãe na tragédia da mineradora Vale. Ao todo, foram 19 parentes de alunos e de funcionários levados pelo tsunami de lama, dos quais 17 continuam desaparecidos.

Dois ex-alunos do Semear também morreram. Uma jovem de 20 anos, que se formaria na faculdade neste ano, também foi levada pela lama. “Ela esteve conosco desde os dois anos de idade. É uma história. A gente cria laços”, lamentou a diretora Tânia Aparecida Campos Martins. Muitos pais, segundo ela, procuraram apoio da escola para contar às crianças sobre as mortes, de uma forma mais profissional.

No Centro Educacional Maria Madalena Friche Passos (CEMMA), 30 famílias de alunos foram diretamente afetadas pelo rompimento da barragem I da mina Córrego do Feijão, que matou 134 pessoas e outras 199 estão desaparecidas – de acordo com o último boletim divulgado nesta segunda. “São alunos que perderam o pai, a mãe, o avô, os tios. Muitos outros perderam primos e amigos. Na verdade, em cada esquina que você vai em Brumadinho tem uma pessoa que perdeu alguém. A cidade é pequena e todo mundo conhece todo mundo”, lamentou a diretora do CEMMA, Neiva Passos. Os alunos da escola dela receberam uma fita branca no pulso, simbolizando paz, união e solidariedade.

O Semear e o CEMMA começaram a preparar seus alunos uma semana antes do início das aulas, visitando as famílias atingidas pela tragédia e dando apoio psicológico também aos parentes dos estudantes.  Na pré-escola e creche Brinque, uma menina de 2 anos e dois meses perdeu a mãe, sepultada no dia 29 de janeiro.

Lágrimas

No Semear, a todo instante uma criança era levada aos prantos à sala da diretora Tânia. Muitas outras chegavam com os olhos marejados. Uma menina de 8 anos não se conformava com a morte do pai, Roliston Teds Pereira, e não conseguiu conter o choro.

Além de conversar, a diretora disse que tenta distrair as crianças menores com um urso de pelúcia. “Às vezes, uma criança que está mais fechada, que não está conseguindo se expressar, a gente finge que é o ursinho que está conversando com ela, e ela solta tudo, vai falando das suas angústias, das suas tristeza”, contou Tânia, emocionada. A diretora observou que os alunos da manhã, com idades entre 10 e 18 anos, estão mais abatidos e querem conversar pouco.

“Tem que ter uma compaixão muito grande. As crianças querem carinho, atenção. Elas nos procuram e isso é importante. Esse momento do choro também é importante. A criança precisa colocar isso para fora. A criança que guarda esse sentimento, ela sofre mais. Fica mais difícil ajudá-la”, pontuou a diretora.

Preparo

Os funcionários do Semear também foram preparados para receber as crianças. Na última sexta-feira (1º), eles receberam a visita de um psicólogo. Ainda assim, segundo Tânia, foi difícil acolher as crianças, diante de tanto sofrimento e lágrimas. “Todos estão muito sensibilizados”, disse a diretora.

No Semear e no CEMMA, o início das aulas também atende a um pedido das famílias dos alunos. “Os meninos precisavam voltar à rotina. Eles chegaram querendo colo, com um abraço muito diferente, um abraço muito mais forte”, observou Tânia. “Fizemos um trabalho de acolhida, de oração, e depois a psicóloga da escola fez um trabalho individualizado e por turmas. À tarde, que são crianças menores, elas chegam um pouquinho mais sem saber o que está acontecendo” disse.

Segundo Tânia, todas as escolas de Brumadinho têm que se fortalecer para ajudar as famílias das vítimas. “A família vai encontrar força é na escola. Nós não podíamos simplesmente fechar a escola. Nós tínhamos que preparar esse retorno. Estamos, sim, trabalhando, mas trabalhando com dor, sofrimento, com uma tristeza enorme, mas trabalhando para acolher”, comentou.

Adiado

A Prefeitura de Brumadinho informou que não há previsão de início das aulas para os 6.000 alunos da rede municipal de ensino. Já a Secretaria de Estado de Educação (SEE) disse, por nota, que, devido ao rompimento da barragem em Brumadinho, o ano letivo das três escolas estaduais do município terá inicio no dia 11 de fevereiro. São 1.323 alunos da rede estadual de ensino na cidade, segundo o Censo Escolar 2018.

“A flexibilização do calendário escolar na região não representa nenhum prejuízo ao cumprimento dos 200 dias letivos e da carga horária anual dos estudantes”, informou a SEE, que disse estar monitorando a situação na região com o objetivo de prestar todo apoio necessário para professores e alunos.

“O Governo de Minas Gerais, por meio da SEE, está articulando um plano de ação de atividades de apoio socioemocional a ser desenvolvido com os estudantes e comunidade escolar de Brumadinho neste início de ano letivo”, informou a SEE.

Nas demais escolas estaduais de Minas, o início do ano letivo de 2019 será em 7 de fevereiro, conforme programado pelo Calendário Escolar da Rede Estadual de Ensino

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