Trauma causado por tragédia pode levar a depressão e suicídio

Sobreviventes, familiares e profissionais precisam de ajuda

CAROLINA CAETANO

Entre tantas histórias de mortes e perdas de todos os tipos, as consequências psicológicas da tragédia causada pelo rompimento da barragem da Vale em Brumadinho tendem a se tornar cada vez mais evidentes e podem aparecer meses após o ocorrido. Segundo um dos membros da Comissão de Emergências e Desastres do Conselho Regional de Psicologia de Minas (CRP-MG), o psicólogo Marcelo Arinos Drummond, são três os grupos de afetados: os que perderam tudo, os que acharam os corpos de parentes e aqueles para os quais a busca nunca terá um fim. Todos sujeitos a consequências como depressão, abuso de substâncias químicas e até mesmo o suicídio.

“Para os familiares que tiveram os entes localizados há um alívio. As pessoas precisam ter o corpo. Isso é muito importante para a elaboração do luto”, explicou.

Os sobreviventes que perderam casas e objetos pessoais também precisam de ajuda. Além de bens materiais, as vítimas ainda têm a perda afetiva, como o sumiço de fotos. “As pessoas passam por um processo de reconstrução porque elas perdem as referências: o local em que moravam, os objetos e animais que tinham. É uma ruptura muito radical”.

Nesse grupo se encontra Emerson Leandro Santos, 30, que trabalha com serviços gerais. Ele perdeu a casa em que morava com a mãe. “Na hora do acidente, eu estava trabalhando em uma horta, ao lado da Vale, vi tudo e já sabia que minha casa ia estar destruída”, afirmou o morador do bairro Parque da Cachoeira.

A situação dos familiares de vítimas ainda desaparecidas é a mais difícil, uma vez que eles mantêm uma ilusão de que os parentes estão vivos. “De um lado mais racional, as pessoas sabem que a chance de encontrar vivo é difícil, mas emocionalmente se apegam a uma fantasia por muito tempo”, destacou Drummond.

E agora? Segundo o psicólogo, algumas pessoas podem não suportar as perdas e entrar em depressão. “Podem aparecer os transtornos de estresse pós-traumático. Elas lançam mão de substâncias para atenuar essa angústia, então é muito comum o uso abusivo de álcool ou outras drogas. Em relação ao suicídio, ainda não está muito bem estabelecida essa relação, mas pode acontecer”, afirmou.

Mineradora

Por meio de nota publicada em seu site, a Vale informou que criou o Comitê de Ajuda Humanitária, formado por assistentes sociais e psicólogos, para prestar atendimento às vítimas e famílias dos atingidos. Ainda conforme o comunicado, desde o dia 31 de janeiro, uma equipe de especialistas em trauma, luto e catástrofes do hospital Albert Einstein, de São Paulo, se juntou a outros cem profissionais que já atuavam nos trabalhos.

Heróis do desastre têm acompanhamento psicológico

Em um trabalho árduo e incansável, militares do Corpo de Bombeiros se empenham na busca por sobreviventes e corpos desde o momento da primeira chamada feita à corporação, por volta das 12h30 do dia 25 de janeiro.

As equipes, apesar do preparo para situações extremas, também precisam de acompanhamento psicológico. “A literatura fala do trauma secundário, quando as pessoas que estão lidando com a situação, como os socorristas, também vão sofrer os traumas. Essas pessoas vão ser afetadas mais cedo ou mais tarde”, explicou o psicólogo Marcelo Arinos.

Ainda conforme o especialista, durante uma reunião do Conselho Regional de Psicologia de Minas, foi discutida a importância de elaborar um plano para atender os socorristas. “Precisamos cuidar deles porque são pessoas, têm limites, estão lidando com o impossível, com o insuportável. E ninguém sai ileso desse tipo de situação”, afirmou.

De acordo com o porta-voz do Corpo de Bombeiros, tenente Pedro Aihara, todos os profissionais que trabalham no caso de Brumadinho passam por atendimento psicológico.

Trauma pode aparecer até 6 meses depois

Entre vários voluntários que estão em Brumadinho, está uma equipe formada por cinco profissionais da Cruz Vermelha. “Quatro psicólogos estão trabalhando em plantões no Hospital Municipal de Brumadinho. Além disso, vamos montar tendas volantes em pontos estratégicos, que ainda serão definidos, para mais atendimentos”, explicou a coordenadora nacional do Departamento Psicossocial da Cruz Vermelha Brasileira, Marcelle Motta.

Ainda conforme a coordenadora, reações após tragédias como o rompimento da barragem podem aparecer até seis meses depois do ocorrido. Ela destaca a necessidade de se dar uma atenção especial a crianças e adolescentes.

“O papel do adulto é importante em monitorar se essas crianças e adolescentes mudaram de comportamento. A volta à rotina diária também é importante. Voltar à escola, por exemplo. Sempre com um apoio dos familiares”, finalizou.

Na contramão, aproveitadores e sádicos 

Na contramão da onda de solidariedade que tem sido uma das marcas da tragédia em Brumadinho, dois grupos de pessoas se destacam: aquelas que se divertem inventando notícias falsas, que pipocam pelas redes sociais, e as que veem na tragédia uma oportunidade de aplicar golpes.

“Há aqueles que são aproveitadores e veem nesses casos uma oportunidade de ganhar alguma coisa. Podemos dizer que é uma pessoa amoral, que pensa: ‘não tenho nada com isso, vou fazer o que for preciso para me dar bem’. No outro caso, são sádicos, geralmente narcisistas, que têm prazer em ver os outros sofrerem”, explicou o psicólogo Marcelo Arinos.

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